willy por wily

Breve biografia de Willy Corrêa de Oliveira

Nasci no Recife, em 1938. Parte do povo ainda usava as músicas que eles mesmos faziam, e algumas delas chegaram ainda vivas à minha infância. Mas a “midia” já se encontrava atuante: “responsável” por este setor das “atividades humanas” há tempos, à espreita. A escola, frequentei-a aos tropeções, até o fim. Tangencialmente. Na verdade não aprendi nada (ou quase nada) do que se ensinava naqueles antros: passando de ano, ano após ano, sem mais. Atento eu só estava para o destino (que me sussurrava: “não ligue para as ortografias deles, mutantes como vírus ultramicroscópicos, nem para as decorações ditas matemáticas, e sabedorias tais e afins. Querem de você é que você seja um perfilado cidadão da democracia.” (deles, bem entendido, fui compreendendo com o decurso do Tempo)). Dispus, pois, de bastante tempo para dedicar à música, aos livros anti-didáticos, às imagens de Goya (de princípio), o que me conferia a aparência de menino estudioso, evitando-me cobranças capciosas. Depois de A Noite Sonhamos vivi sob o signo de Chopin, fiel ao conselho do Destino: “Com ele, em frente!” Bem, depois, bem depois, vieram Beethoven, Bach (sem órgão, nem quartetos de cordas). Villa-Lobos era mais um orgulho pátrio, um mito, nome. E ademais me ocupava, então, com carrancudos livros de Teoria Musical, Harmonia, Orquestração. Inevitavelmente cheguei à Béla Bartók e ao século xx. Porém, por essa época descobri a Renascença e a Idade Média e fui ser moderno – como nunca antes. Ulteriormente Olivier Toni deu ordem e polimento aos meus arquivos, e, ele em conluio com o Destino, me aconselhou mui propriamente. Sei-o hoje, que estava pronto para dar ouvidos a Henri Pousseur. Por então James Joyce foi pedra de toque. E os cinemas de Godard, Fellini (8,5=∞), Antonioni. E eis que alguns anos depois, em seríssimo colóquio com o Destino, dizia-lhe “Como pode, eu – um comunista – escrever uma obra tão nada comunista como a que cultivo?” E o Destino aquiesceu: “Não pode!” Desisti de minhas malas abarrotadas e afastei-me – enfastiado – com a roupa do corpo, e a necessidade de melhor compreender a dialética, e de estudar (e avaliar) as artes dos povos (de antes da industrialização). Oito, nove anos depois, o estrondo das pedras desabando do muro de Berlim (sob as picaretas dos babilônios), e um filme de Andrei Tarkovski me trouxeram – de volta – uma incessante carência de arte*que não me atiçava há tempos, dadas as premências e alegrias dos trabalhos cotidianos.

Estes dias, eu mostrava ao Henrique P. Xavier umas coisas minhas. Avisava-o de não se apoquentar caso não lhe calhassem, posto que respondiam – sem dúvida – à questões que me construíram ao longo dos anos, em um mundo sem linguagem universalizante; a talvez que estivessem fadadas a servirem só a mim. Podem as exigências que me edificaram ser semelhantes, precisamente, àquelas de outros semelhantes de um continente de ensimesmados? Destino de quem nasceu no auge do capitalismo.

* No sentido antigo

Willy Corrêa de Oliveira
São Paulo, 7 de julho de 2009