Sem título

Sem título

Fascínio. Voltava todos os dias, a semana  inteira. Que teria  ruminado o porteiro a cada vez que me via voltar? Não cobravam ingresso nem exigiam documento de idade; o pequeno cinema era de um parente de minha avó. Revi o filme daquela semana, cada dia, até que trocaram o programa.

Lembro-me só do título “O MEDO QUE DOMINA”, das emoções agudas, das delícias do pavor que me dominava, que me paralisava até que eu recriasse forças para retornar mais uma vez, e de que – a partir do filme – o latim me interessou em essência por muito tempo. Não tinha dez anos e decorava as declinações uma a uma, desde o vetusto compêndio de capa-dura, desalinhado: lassas as costuras, as páginas bambas. Haviam dito que as declinações deviam ser decoradas.

Nunca deixei de lembrar o título do filme, do frêmito do medo que me enfeitiçava e da paixão pelo latim, mesmo que passageira. Vez por outra, voltava sempre ao assunto quando se falava de películas inesquecíveis. Sem chance: nunca conheci ninguém que tivesse visto aquele filme, que dissesse dele qualquer coisa. Qualquer coisa. Busquei-o, sem êxito, incansável, anos a fio. Nem vestígios.

Dias atrás, ganhei do  Maurício * um DVD do filme (hélas!), sem legendas, o som gasto, imagens esmaecidas. THE UNSEEN, dirigido por Lewis Allen, com Joel McCrea, Gail Russell, Herbert Marshall, 1944.

De um conjunto de emoções particularíssimas, ver de novo aquele filme: era  protelável, irremediavelmente. Sessenta e tantos anos se passaram, areia fina em duna pela ação do tempo. Por fim a decisão de re-vê-lo. A Marta ao meu lado, como um par de enormes orelhas para traduzi-lo, cena a cena. O filme passava, passava e o medo não aparecia para me dominar, e nada a indicar que o latim, afinal, tivesse qualquer conexão com a trama, sem doçuras de madeleines, até ao fim do filme, ou quase. Aos poucos, sem que eu me advertisse, as cenas que se localizavam na biblioteca da morada, apuravam-se dentro de mim, ampliavam-se sem mesura, acutilavam harmônicos muito ímpares do fundo da memória; único elo com o filme, na infância. Certificava-me – estatelado na poltrona – de que havia nascido em uma estante de livros, e que livros corriam na minha medula independentes do conhecimento das letras; e meu pai só se desprendeu dos livros quando não mais conseguiu retê-los sob a vista, desmemoriado, quase. Atinei, então, que aquela gramática colegial de latim, provável que esquecida por algum primo mais velho, lá em casa, como se vinda desde a biblioteca do filme, constituía, naqueles tempos, minha comunhão mais decisiva com o mundo dos grandes, e com o extraordinário que se multiplicava e  realizava-se infinitamente desde a tela daquele pequeno cinema de bairro. Na época, eu tinha uma ponderável coleção de livros para criança, mas... : um sério, de adultos, mesmo roto, o de latim havia sido o primeiro a me alcandorar para um mundo de acontecimentos, decifrações, enlevos, até certo ponto visível, mas inalcançável para o menino. The End – a tela escurecendo-se, sabia (repentino), colado à poltrona, suspenso, que outro qualquer livro, sobre o que quer que fosse, que houvesse sido, robusto, teria – irrenunciavelmente – atravessado a lisura da tela do cinema para o lado de dentro do mundo apavorante e acolhedor do Medo que domina. O encontro, entretanto, foi com o sóbrio livro de latim: dediquei-me a ele em  memória do universo espantoso daquelas sessões de cinema que misturaram calafrios com a língua morta: como um cristal surpreendente. Mais tarde, no ginásio, não tive gosto por latim.

*de Bonis.

São Paulo, 15 de março de 2011.