Uma reticência entre parênteses

Uma reticência Entre Parênteses

De hoje a 15 deste mês, o 1º Seminário de Música Contemporânea
estará tendo lugar no Instituto de Artes da UFRGS – numa promoção
do DAC-SEC e colaboração da Pro Arte, ICBA, ICBNA e Unificado.
Terá como tema “MUSICA/LINGUAGEM”. Dentre as personalidades
convidadas destaca-se o compositor Willy Correa de Oliveira,
professor do Departamento de Música da ECA-USP, que dirigirá
o seminário homônimo, durante o encontro. A temática se deflagra
a partir do ensaio que transcrevemos aqui, e que consistirá
da pauta de discussão de abertura.
Musicalmente, duas verdades são possíveis de serem expressas:
uma estrutural e outra passional; mas é na estrutural que todo o
pensamento musical encontra sua unidade.
De um lado temos, pois, a verdade passional, interpretando a
“outra área do discurso” as sensações. E qualquer definição e/ou
explicação que se proponha nesta área, desembocaria inevitavelmente
numa aporia. O conjunto de nossos sentimentos integram
nossa linguagem privada (uma e uma só para cada individuo) e
qualquer esforço de verbalização deve ser estimado como uma tentativa
(prenhe de “sugestões” mas ineficaz ao nível da definição) e
que ainda será submetida a uma outra apreensão (modulada pela
linguagem privada de um ou outro individuo) à qual eu não tenho
pleno acesso. Assim recordemos Wittgentein: “ o que não se pode
falar deve-se calar”. O silencio consentido, o silencio com sentido. E
ainda: a paixão prescinde da razão para se impor, e revela-se por
isso mesmo ineficiente para nos conduzir até a ontologia da linguagem;
e muito menos como ferramenta de analise para um juízo de
valor. A paixão é do domínio da “sugestão”, da ambiguidade, do
inefável.
A verdade estrutural é apodíctica. Move-se pela consistência
dos relacionamentos entre os elementos (factuais) que compõem os
discursos.
As inter-relações de:
Tempo (andamentos: estáveis; móveis; periódicos; aperiódicos)
Ruído (não periódico ao nível das freqüências)
Freqüência (propostas lineares e/ou simultâneas) (periódico)
Som (parâmetros)
Localização no contínuo frequencial
Projeto harmônico (tensão/relax, e polarização/não polarização)
Contorno
Direcionalidade
Densidade (horizontal, vertical)
Intensidade (nível expressivo/nível estrutural)
Timbre (espectro)
Duração (articulações no tempo)
Silencio (pontuações, expressões, estrutura)
Sistema de referencia (dentro de um projeto diacrônico da historia)
Modo de jogo (morfologia e teleologia do discurso)
Que se organizam em nível horizontal (linear) e em outro vertical
(contraponto, harmonia, heterofonia). A sintaxe. Estão no modo
como os elementos se organizam, os dados para a decodificação
semântica: signos que não apontam para fora – não simbolizam –
se autodenotam expressando funções: “vigiando duvidando rolando
brilhando e meditando antes de se deter em algum ponto ultimo
que o sagre” as significações se estabelecendo em função do contexto.
Cada obra lançando seus dados: emitindo seu próprio código! E,
quando mais estreitas as relações; quando mais numerosas sejam
as trocas de informações entre os elementos; quanto mais orgânico
se manifesta o todo, uno. A verdade estrutural é humana (sensível)
porquanto se mostra como metáfora da vida orgânica e não como
se pretende (partindo-se de quantas direções filosóficas!) formalista
e desvinculada do Homem: como se o Homem fosse só paixão:
como se o pensamento distintivo entre o homem e o animal.
Nessas considerações estamos excluindo o jogo estrutural: o
conhecimento e a possibilidade de manipulação de operações –
quando não se ultrapassa – quando se apresenta em mesmo, o que
poderíamos chamar de “exercício de linguagem”. Neste sentido o
jogo estrutural não ultrapassa o domínio das regras (das fórmulas),
embora esteja incluído numa categoria sintática. (mas não é do sentido
dessa sintaxe que a linguagem musical se nutre). A verdade
estrutural alia o conhecimento das operações (lúdicas) à capacidade
criativa (imponderável) o que torna possível novas operações, e
só então se revela a ontologia de linguagem musical. O jogo estrutural
manifesta no máximo uma capacidade imaginativa atada à
mímesis; a verdade estrutural é o testemunho da capacidade criativa
(e transformadora; o domínio do homem sobre a natureza).
Se a verdade estrutural exclui o jogo estrutural porque ultrapassa,
não exclui a verdade passional porque não a alcança. Mas a
verdade passional só é efetivam quando se apropria da verdade estrutural
para se tornar transparente. A verdade estrutural é uma
manifestação da “paixão” do pensamento lógico.
De qualquer forma, força é exprimir aqui uma reticência e
que se tentando uma explicação logo ocorreria: uma variação ornamental
da melodia sobre figurações arpejadas dos acordes (broken
chords), que sem dúvida definiria mais a natureza da variação
(mas continuaria dizendo pouco...); ou ... uma transfiguração do
tema ( e o pouco dito continua dito pouco, convenhamos); e ainda
que se estabeleça um coeficiente de tempo/densidade, seria (no
caso que nos ocupa) de pouco alcance. Estas ferramentas de analise
– que na quase totalidade dos casos constituem excelentes recursos
– aqui se redurdam em tautologias e, como tais, vazias! Aquilo sobre
o que não se pode falar deve-se silenciar. Aqui não é o resto que
é silencio, é tudo.