Uma idéia de formação continuada em Direitos Humanos

Uma idéia de formação continuada em educação e direitos humanos

José Sérgio Fonseca de Carvalho (coordenador); Alessandra Gomes, Cláudio Neto, Cosme Marins Diana Mendes Machado da Silva, Luciana Bilhó Gatamorta e Wellington Tibério.

I. Apresentação

O texto que ora apresentamos procura sintetizar quatro princípios que têm norteado um programa de formação continuada de professores cuja primeira edição remonta ao início de 2001. Ao longo destes seis anos de existência, o curso "Educação, Cidadania e Direitos Humanos" formou mais de 2.000 profissionais da educação das redes públicas municipais de São Paulo, Suzano e Embu. Sua concepção e execução são resultados de um trabalho que envolveu, além dos formadores, as equipes pedagógicas das secretarias com as quais trabalhamos. Embora já tenhamos publicados dois artigos relatando as experiências de campo1, as reflexões aqui apresentadas representam uma primeira tentativa de sistematização de algumas de nossas discussões teóricas acerca dos princípios norteadores do trabalho.

II. Nota Prévia

O sentido de se apresentar reflexões tecidas a partir de uma experiência em formação de professores tão pontual e específica como a que inspira este artigo não deve residir na esperança de sua generalização ou na expectativa de seu transplante mecânico para novos contextos. Se assim o fizéssemos, reduziríamos o problema em pauta à busca de eficácia na aplicação de um conjunto de procedimentos abstratos, Publicado em: Educação em Direitos Humanos: fundamentos teórico-metodológicos pretensamente capazes de solucionar problemas concretos a partir de regras de ação que, por seu caráter geral, são inadequadas ou pelo menos largamente insuficientes para o enfrentamento desse tipo de desafio.

Scheffler, ao analisar problema análogo, ressalta que é engano, portanto, pensar que alguém pode aprender a ensinar simplesmente adquirindo uma estrutura padronizada [...] ou que possamos ensinar as pessoas a ensinar prescrevendo-lhes uma estrutura desse gênero, formulada em regras gerais. O que pode ser razoavelmente feito com vistas a ensinar as pessoas a ensinar apresenta, na verdade, um problema crucial. Bastará observar que sejam quais forem as regras que poderiam ser proveitosamente aplicadas nesse caso, elas serão provavelmente mais comparáveis a regras que são proveitosamente utilizadas no ensino de geometria ou da ciência – e não a regras de ortografia ou pronúncia (1974; 83).

Isso porque uma arte-prática como o ensino não é passível de regulação por “regras exaustivas”, ou seja, não há um conjunto de regras ou procedimentos cuja observância garanta o êxito em relação à meta pretendida, como no caso de um bom manual de um programa de computador ou das regras de ortografia, como menciona Scheffler.

Claro que sempre é possível – e mesmo fácil - formular regras exaustivas que, aparentemente, trariam a chave do êxito. Seria esse o caso, por exemplo, se disséssemos a um time de futebol que para ganhar um campeonato basta, em toda e cada partida, fazer mais gols no adversário do que eles em seu time. De fato, a regra, se observada, leva ao êxito. No entanto, sua enunciação é inútil, já que ela descreve uma condição de êxito sem, contudo, auxiliar concretamente em sua obtenção. Embora banal, essa observação tem sido pouco considerada numa série de discursos pedagógicos e metodológicos que procuram fazer de certas platitudes didáticas princípios teórico-metodológicos pretensamente capazes de aumentar significativamente a eficácia da ação docente.

Não obstante esses claros limites decorrentes da natureza da ação formativa, parece-nos que a apresentação de um conjunto de princípios que têm norteado as ações do Programa de Formação Contínua de Professores nestes seis anos pode contribuir para a compreensão teórica dos tipos de desafios a enfrentar num programa de formação continuada e ensejar a reflexão e análise crítica de programas análogos. Não se trata, pois, de uma descrição detida da experiência, mas da exposição e da análise de quatro princípios norteadores subjacentes às diversas atividades formativas, configurando simultaneamente um esforço de compreensão teórica e a afirmação de um compromisso político com a formação de professores da rede pública de ensino.

Como decorrência da opção por centrar esta exposição nos princípios norteadores da ação formativa, faz-se necessário uma última advertência. Princípios não carregam em si as regras de suas aplicação, daí porque um mesmo conjunto de princípios ético-religiosos (como o cristianismo) ou sócio-políticos (como o marxismo) tenham gerado práticas sociais tão diversas e, por vezes, mesmo conflituosas entre si (como as relações entre as diversas religiões cristãs ou os regimes políticos alegadamente inspirados no marxismo). Assim, ao apresentar os princípios do programa, seguidos de sua justificativa e da forma pela qual foram operacionalizados, não se sugere haver entre esses dois elementos – princípios e procedimentos operativos – uma relação de necessidade. Procuraremos apenas mostrar como um princípio norteou uma prática ou, noutras vezes, como uma prática desenvolvida nos sugeriu a existência de um princípio estruturante a ela subjacente.

* Texto originalmente publicado em Educação e direitos humanos:experiências em formação de professores e em práticas escolares. In: Shilling, F. (org.) Direitos Humanos e Educação. São Paulo, Cortez, 2005.

 

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