Liberdade educa ou a educação liberta?

A liberdade educa ou a educação liberta? Uma crítica das pedagogias da autonomia à luz do pensamento de Hannah Arendt.

                  ... Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda...
Cecília Meireles

Apresentação

Há alguns anos uma revista mensal de política e cultura me sugeriu como objeto de reflexão o dilema: a liberdade educa ou a educação liberta?. Na ocasião senti-me premido pelo espaço e tempo concedidos, mas desafiado pela idéia de examinar um fenômeno intrigante e paradoxal. Trata-se do fato de que, ao longo do século XX, pensadores radicalmente diferentes em termos de interesses e perspectivas teóricas pareciam ter um ponto de convergência: vinculavam de forma substancial o sentido da ação educativa ao cultivo de um compromisso para com a "liberdade". Seria a análise do dilema proposto um caminho interessante para deslindar divergências e confrontar tendências entre o aparente – ou verbalmente - consensual?

Retomo, então, o dilema, menos na expectativa de apresentar uma resposta direta do que para, a partir dele, formular algumas das bases sobre as quais repousam o consenso aparente e o dissenso latente em diferentes visões sobre as relações entre ação educativa e liberdade. Convém ressaltar, desde logo, que seu equacionamento exige a formulação de novas perguntas: a que noção de Carvalho, liberdade ele se refere? À corrente entre os antigos, concebida como um status político, na qual o “homem livre” é aquele dotado dos direitos da cidadania? Ou à concebida pelos modernos, inicialmente centrada no direito dos indivíduos às liberdades civis (de opinião, de credo religioso etc.) e progressivamente estendida para outras esferas nas quais o indivíduo livre é concebido como aquele capaz de fazer escolhas próprias a partir de seu livre-arbítrio e de sua consciência? Ou ainda a liberdade como vivência escolar, tal como sugerem os discursos das chamadas pedagogias „não diretivas‟ em suas críticas às „escolas tradicionais‟? E ainda, com que noções de educação e práticas educativas estamos lidando?

Essas breves considerações já indicam um dos problemas fundamentais desse tipo de discussão: "liberdade‟ – aliás, assim como "educação‟ – é um termo polissêmico, eivado de sacralidade e impregnado por paixões teóricas e políticas, o que o torna objeto de inevitáveis disputas conceituais. No entanto, os discursos educacionais sobre as conexões entre formação escolar e „liberdade‟ raramente se preocupam em elucidar, dentro de um quadro relativamente claro de idéias ou perspectivas, os sentidos atribuídos aos termos em questão e às disputas teóricas e programáticas que ensejam. Não se trata de cair na tentação do que Passmore chamou de „falácia socrática‟: a crença de que uma discussão proveitosa sobre um tema exige definições prévias e exaustivas de seus conceitos fundamentais. Trata-se simplesmente de reconhecer que a enunciação de um compromisso com a "liberdade‟ – ou a denúncia acerca de sua ausência – tem sido proclamada como se os objetos em questão fossem evidentes e livres de ambigüidades, como se as disputas não envolvessem os próprios conceitos em torno dos quais se organiza a controvérsia.

(continua)

*Publicado em Educação e Pesquisa.São Paulo, v. 36, n.3 p. 839-851. Set-dez 2010.

 

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