José Sérgio Carvalho, uma biografia comentada

Biografia comentada de José Sérgio Fonseca de Carvalho

Por Cosme Freire Marins

 

“Palavras sem obras são tiros sem balas; atroam, mas não ferem. O pregar que é falar faz-se com a boca; o pregar que é semear faz-se com a mão. Para falar ao vento, bastam palavras; para falar ao coração são necessárias obras.”
Padre Antônio Vieira, Sermão da sexagésima.
Formação inicial

José Sérgio Fonseca de Carvalho nasceu e cresceu na Zona Leste de São Paulo. Passou a infância no bairro de Vila Matilde onde estudou o então primário no “Externato São José”. Cursou o ginásio na Escola Estadual “Infante Dom Henrique”, considerada pelo autor como sua escola do coração, local onde vota até hoje.

Realizou o curso técnico de Turismo, pela Escola Técnica Estadual “Camargo Aranha”, localizada, à época, no Brás. Nesse curso entrou em contato com disciplinas menos conhecidas e relacionadas à cultura, o que certamente influenciou em sua formação humanista. Estudou dois anos e meio e concluiu o então colegial nos Estados Unidos, por meio de um programa de bolsas de estudos.
Em 1978 entrou no curso de Filosofia, na Universidade de São Paulo (USP). Momento político chamado de distensão, mas ainda marcado por arbitrariedades, violência contra movimentos sociais, perseguição a opositores, repressão a manifestações, enfim, um período em que a democracia ainda era um sonho ou, na melhor das hipóteses, algo a ser conquistado no médio prazo.

O final da década de 1970 foi marcado pelo início da reorganização dos movimentos sociais, pela reestruturação da União Nacional dos Estudantes (UNE), pela organização do Partido dos Trabalhadores (PT) e pelo retorno, embora acanhado, das passeatas. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, essas mudanças se refletiam nos debates e nas conversas com personalidades políticas ligadas aos setores de esquerda, que estavam alcançando alguma projeção, refletida nas urnas.

É nesse universo estranho, muitas vezes ininteligível e com marcas profundas deixadas pela ditadura – em que o receio constante de ser espionado por informantes dos órgãos de repressão, aliado à memória recente de prisões, torturas, banimentos, desaparecimentos e assassinatos cometidos contra trabalhadores e universitários – que o jovem José Sérgio inicia sua vida universitária. Nesse período complementou os estudos de Filosofia na Universidade de Estrasburgo.

A ligação com a Educação

Quando perguntado sobre sua titulação, nos vários eventos de que participa, José Sérgio faz questão de dizer que, antes de qualquer outro título ou qualificação, é professor. Desde quando ingressou no curso de Filosofia já trabalhava ministrando aulas pela manhã e frequentando a faculdade no período noturno. Sua carreira no magistério teve início com aulas de Inglês. Sua ligação com a Educação começou cedo, e não parou até hoje. Dessa relação podem-se enfatizar algumas dimensões.
A primeira se refere ao ofício do magistério. Além de ter ensinado inglês, ingressou na rede estadual de ensino e lecionou, durante muitos anos, Filosofia para o Ensino Médio. Sua experiência na área não se restringiu à rede pública. Também foi professor na rede particular de ensino.

Outra dimensão se liga às pesquisas educacionais. Concluindo o curso de Filosofia, Carvalho ingressou na Faculdade de Educação (FE) da USP, instituição na qual se graduou. Posteriormente desenvolveu trabalho de mestrado intitulado Construtivismo e racionalidade científica: as contribuições de Piaget para a Teoria da Ciência. Dedicou-se novamente ao estudo do construtivismo no doutorado, defendendo a tese Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola.
A terceira dimensão aqui abordada é uma síntese das duas anteriores – relaciona-se à preocupação com a extensão universitária ligada à educação pública. Como exemplos disso podem-se citar os programas e projetos voltados à rede pública dos quais participou. Destaca-se o Projeto Direitos Humanos nas Escolas, que resultou no Curso Educação, Cidadania e Direitos Humanos, que atendeu profissionais da educação de escolas estaduais situadas em Osasco e de escolas municipais de São Paulo (São Miguel Paulista e Butantã), Embu e Suzano.
O trabalho na área de Educação em Direitos Humanos
Quando José Mário Azanha passou a ser o coordenador da Cátedra Unesco para a Paz, Direitos Humanos e Democracia da USP, José Sérgio propôs duas ações voltadas ao tema: uma disciplina na licenciatura que se voltava para a formação inicial e os Direitos Humanos e uma ação de formação com professores da rede pública. A ideia era de que os Direitos Humanos fossem um núcleo de princípios ético-políticos capazes de orientar ações educativas. Assim nasceu sua vinculação com os Direitos Humanos – por meio da formação de professores.
Dessa preocupação com os Direitos Humanos vinculados à formação de professores surgiu o curso Educação, Cidadania e Direitos Humanos, que foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos desde a primeira edição. Nesse processo adequaram-se o formato, os assuntos e as linguagens abordadas à realidade das redes atendidas. Os temas componentes do curso foram selecionados a partir de pesquisa empírica realizada com os professores das redes em que o projeto foi implantado, quando perguntados sobre os problemas que comprometiam o êxito da educação.

Assim, o curso foi desenhado abordando temas relacionados às questões dos direitos humanos e à democracia em si, sempre ligando-os à educação (Ética e Educação, Direitos Humanos e Educação, Democracia e Educação, Desigualdade e Educação) e aqueles recorrentes nos discursos dos professores, apurados na pesquisa como impeditivos para o êxito do processo educacional (Violência e Educação, Conflito e Educação,  Mídia e Educação, Família e Educação).

Os princípios norteadores do Curso são assim sintetizados pelo autor:

a)    O foco preferencial da formação continuada deve ser a cultura institucional e não a consciência individual do professor;

b)    As relações entre a universidade pública e a rede pública não devem ser concebidas como prestação de serviço (da primeira à segunda), mas como oportunidade de fecundação mútua e preservação das particularidades;

c)    As atividades do programa visam antes à formação intelectual do professor do que a difusão de recursos técnicos e de procedimentos de ensino; e

d)    A Educação em Direitos Humanos deve impregnar o cotidiano escolar por meio de sua tematização curricular e do fomento de práticas escolares em consonância com seus princípios.

Com esses princípios o Projeto beneficiou centenas de professores das redes atendidas e, concebendo o processo desde o início como um ciclo, sua coroação ocorreu com a realização do Simpósio Direitos Humanos, Formação Escolar e Esfera Pública, nos meses de novembro e dezembro de 2007, na Faculdade de Educação da USP, que resultou na criação do Comitê Estadual de Educação em Direitos Humanos de São Paulo.

A trajetória universitária

A trajetória acadêmica de José Sérgio é composta por várias disciplinas ministradas na Faculdade de Educação da USP, tanto para a graduação (cursos de Pedagogia e de Licenciaturas oferecidas pela Faculdade) quanto para a pós-graduação em Educação (mestrado e doutorado). Já escreveu dezenas de artigos publicados em livros, periódicos e anais de eventos; organizou e publicou livros; proferiu diversas palestras; organizou eventos; compôs dezenas de bancas examinadoras.
É membro do Grupo de Estudos em Temas Atuais da Educação e foi membro titular do Conselho da Cátedra Unesco para a Paz, Direitos Humanos e Democracia da USP. Já ocupou cargos administrativos importantes, como a vice-chefia e a chefia do Departamento de Filosofia da Educação e Ciência da Educação da FE USP.

A primeira fase da produção intelectual de José Sérgio foi influenciada pela presença da filosofia inglesa contemporânea, tanto nos estudos de análise lógico-conceitual dos discursos educacionais, quanto na crítica aos discursos construtivistas. Também sofreu influência de seu orientador, José Mário Pires Azanha, cuja obra foi por Carvalho apresentada na Coleção Grandes Educadores, patrocinada pelo Ministério da Educação (MEC).  

Nos últimos anos tem sido crescente a vinculação das pesquisas com o pensamento político de Hannah Arendt e o tema do sentido público da formação educacional. Entre 2007 e 2010 desenvolveu o projeto de pesquisa intitulado Crises da educação, crises da modernidade, cujo objetivo era “Investigar, a partir da leitura de obras de Arendt e Benjamin, os impactos do 'mundo moderno' nas concepções e práticas educacionais”.

A partir de 2010, passou a desenvolver o projeto de pesquisa Experiência, sentido e formação em Hannah Arendt, cujo objetivo é analisar intersecções e especificidades entre os domínios do político, do educacional e da filosofia moral nos escritos da autora e, a partir dessa análise, pensar a experiência, peculiar ao nosso tempo, de educar num mundo que não é estruturado pela autoridade nem mantido coeso pela tradição. Esse caráter inusitado de nossa experiência nos abre a oportunidade de enfrentar o novo pelo pensamento e pela reflexão, voltando nossa atenção para a busca dos sentidos das práticas educativas.

Principais obras

Livros
José Mário Azanha (Coleção Grandes Educadores).  Recife: MASSANGANA, 2010. v. 1. 176 p.  
(Org.). Educação, Cidadania e Direitos Humanos. Petrópolis - RJ: Editora Vozes, 2004. v. 1. 373 p.
Construtivismo: uma pedagogia esquecida da escola.  Porto Alegre: Artmed, 2001. v. 1. 132 p.

Capítulos de livros

Os sentidos da indisciplina. In: AQUINO, Julio Groppa. (Org.). Indisciplina na escola. Alternativas teóricas e práticas. São Paulo: Summus Editorial, 2010, v. 1, p. 129-138.  
Direitos Humanos, formação escolar e esfera pública. In: BITTAR, Eduardo C. B. (Org.). Educação e Metodologia para os Direitos Humanos. São Paulo: Quartier Latin, 2008, p. 255-271.  
Acolher no mundo: educação como iniciação nas heranças simbólicas comuns e públicas. In: BARBOSA, Raquel Lazzari Leite. (Org.). Formação de Educadores - Artes e Técnicas - Ciências e Políticas. São Paulo: Editora da UNESP, 2007, p. 53-60.
Uma idéia de formação continuada em educação e direitos humanos. In: SILVEIRA, Rosa; DIAS, Adelaide; FERREIRA, Lúcia; FEITOSA, Maria; ZENAIDE, Maria. (Org.). Educação em Direitos Humanos: fundamentos teórico-metodológicos. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2007, p. 469-486.  
 CARVALHO, J. S. F. de.; SESTI, Adriana; SANTOS, Luciano Silva; TIBÉRIO, Wellington. Educação e Direitos Humanos: experiências em formação de professores e em práticas escolares. In: Schilling, Flávia Inês. (Org.). Direitos Humanos e Educação - Outras palavras, outras práticas. São Paulo: Editora Cortez, 2005, p. 186-205.  
Autonomia e autoridade no construtivismo: uma crítica às concepções de Piaget. In: AQUINO, Julio Groppa. (Org.). Autonomia e Autoridade na Escola.  São Paulo: Summus Editorial, 1999, v. 1, p. 49-79.  
As noções de erro e fracasso no contexto escolar: algumas considerações preliminares. In: AQUINO, Julio Groppa. (Org.). Erro e Fracasso na escola.  São Paulo: Summus Editorial, 1997, v. 1, p. 11-24.  
Artigos
A liberdade educa ou a educação liberta? Uma crítica das pedagogias da autonomia à luz do pensamento de Hannah Arendt. Revista da Faculdade de Educação (Universidade de São Paulo. Impresso), v. 36, p. 839-851, 2010.  
Educação e Direitos Humanos: um balanço sobre formação de professores. Org & Demo (Unesp. Marília), v. 11, p. 121-132, 2010.
Pedagogical discourse and the vanishing of an ethical-political meaning of education. HannahArendt.net, v. 5/2009, p. V, 2009.  
 O declínio do sentido público da educação. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, v. 89, p. 411-424, 2008.  
A qualidade de ensino vinculada à democratização do acesso à escola. Estudos Avançados (USP. Impresso), v. 21, p. 307-310, 2007.
Educação e experiência estética: 'valor' social ou sentido público. Sala Preta (USP), v. 7, p. 83-91, 2007.  
 Formação Escolar e Esfera Pública. In: Formação Escolar e Esfera Pública, 2007, São Paulo. Simpósio Formação Escolar e Esfera Pública. São Paulo - SP, 2007.  
Democratização do ensino. Revista da Faculdade de Educação. Universidade de São Paulo, São Paulo, v. 30, n. 02, p. 327-334, 2004.
Formação de professores e educação em direitos humanos e cidadania: dos conceitos às ações. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 30, n. 2, 2004.  
 Podem a ética e a cidadania ser ensinadas?. Revista Pró Posições, Campinas - São Paulo, v. 13, n. 3, p. 157-168, 2002.  
 Direitos Humanos, cidadania e práticas educativas. Revista Alfabetização e Cidadania, São Paulo, n. 7, p. 23-32, 1998.  
The idea of educational theories and programs based on Piaget's theory: some contributions from a philosophical perspective. Revista Notandum, Madri - Espanha, n. 2, p. 37-48, 1998.  
A formação de professores e os valores da cidadania. Revista Estudos Avançados, São Paulo, n. 3, 1997.  
Cooperação entre a cátedra Unesco-USP e a Faculdade de Educação. Estudos Avançados, São Paulo, v. 11, n. 30, p. 139-142, 1997.

Biografia comentada